5. INTERNACIONAL 4.9.13

ACERTAR O ALVO  FCIL... ...O DIFCIL  O QUE VEM DEPOIS
Um ataque liderado pelos Estados Unidos contra a estrutura militar da ditadura sria pode at coibir o uso de armas qumicas, mas os riscos para o mundo podem ser ainda maiores do que no fazer nada.

     Ao apresentar na sexta-feira 30 as provas colhidas pelos servios de inteligncia americanos de que foi obra do ditador srio Bashar Assad o massacre de 1429 pessoas, das quais 426 eram crianas, h duas semanas em doze localidades prximas a Damasco, o secretrio de Estado John Kerry afirmou: "O mundo no pode deixar um ataque qumico sem punio". Na avaliao do governo americano, essa  a razo que justifica enfrentar todos os riscos associados a entrar numa aventura militar na Sria, o pas do Oriente Mdio cuja guerra civil j matou mais de 100.000 pessoas. Por mais que os Estados Unidos no tenham o menor apetite por se envolver em mais um conflito longnquo  custou muito sair do Iraque, que os americanos invadiram em 2003, e a encrenca no Afeganisto ainda est longe de terminar , o presidente Barack Obama se viu, na semana passada, obrigado a cumprir o que prometeu um ano atrs. Na ocasio, quando a guerra na Sria ainda no tinha provocado a metade da contagem de mortes atual, e quando uma interveno militar externa ainda parecia ter chance de abreviar a matana, acelerando a queda de Assad, Obama disse que s tomaria uma atitude mais direta se o ditador cruzasse uma "linha vermelha", ou seja, utilizasse armas qumicas. 
     Depois de pr o pezinho algumas vezes para alm desse limite nos ltimos meses, com ataques qumicos de pequena escala contra a prpria populao, o regime de Assad ousou uma matana de grandes propores no dia 21 passado contra os civis que vivem em reas dominadas pelas foras rebeldes. Se no agisse com firmeza desta vez, Obama no apenas perderia credibilidade aos  olhos do regime srio, que se sentiria livre para usar seu arsenal de gases sem pudores, como daria um pssimo exemplo a outros pases prias empenhados em produzir armas de destruio em massa, o que inclui o Ir e a Coreia do Norte com seus programas nucleares. No jogo de presso que exerce sobre o Ir, por exemplo, o governo americano j declarou que no descarta nenhuma opo, nem a militar, para impedir que os aiatols tenham uma bomba atmica. Que chance a comunidade internacional teria de pressionar os iranianos novamente se ficasse claro que as ameaas americanas no tm valia? 
     O mundo certamente no quer que o uso de armas qumicas, biolgicas e nucleares  que se caracterizam por ter um poder de destruio to vasto que acabam inevitavelmente vitimando um grande nmero de civis  se torne banal. Um ataque militar americano at tem potencial para diminuir a capacidade do governo srio de utiliz-las novamente, destruindo cirurgicamente a artilharia pesada e o poderio areo de Assad. Os cinco destrieres americanos enviados ao Mar Mediterrneo, cada um armado com pelo menos quatro dezenas de msseis Tomahawk, tm capacidade de fazer isso a uma distncia de mais de 1600 quilmetros do alvo, sem expor os navios e os tripulantes, e sem precisar enviar soldados ao territrio srio. Mesmo que, com isso, se consiga coibir ou ao menos desincentivar o uso de armas qumicas por Assad, a operao carrega consigo uma srie de riscos. Eis os principais: 
 Ao visarem a infraestrutura militar da Sria, os msseis americanos podem acabar acertando fbricas ou estoques de armas qumicas. Isso poderia liberar uma grande quantidade de gases txicos no  ar, afetando a populao civil que vive nos arredores. Os estrategistas militares americanos j avisaram que evitaro esses alvos, mas como em toda guerra pode no sair como planejado. 
 Apesar da acurcia dos msseis Tomahawk, capazes de acertar um carro com uma margem de erro de apenas 10 metros, como em qualquer bombardeio h o risco de um ataque causar a morte de civis. O regime de Assad, mestre em explorar a ideia de um inimigo externo diablico, vai usar cada imagem de srio morto para provar que os Estados Unidos esto promovendo um ataque ilegtimo.  Assad e, principalmente, os seus aliados libaneses do Hezbollah, um grupo radical xiita, podem retaliar. A maneira mais eficiente ser atacando Israel, que na semana passada comeou a distribuir mscaras de gs para proteger a populao de armas qumicas. 
 O regime srio, como demonstrao de fora, pode intensificar os ataques qumicos contra a prpria populao, desafiando os Estados Unidos e obrigando Obama a se envolver mais profundamente no conflito. De fato, Assad demonstra no estar preocupado com a repercusso internacional de suas atrocidades. Na semana passada, foi divulgado um vdeo que mostra crianas srias com o corpo cheio de queimaduras, com a pele se soltando, e cobertas de uma pasta branca. Segundo os rebeldes, tratou-se de um ataque do governo contra uma escola em Alepo, cidade em parte controlada pelas foras anti-Assad. Roque Monteleone Neto, professor da Escola Paulista de Medicina que foi perito da ONU no Iraque, analisou o vdeo a pedido de VEJA e avaliou que parece mostrar um ataque com agentes vesicantes, que causam danos  pele e alteraes respiratrias. Incluem- se nesse grupo de armas qumicas os gases mostarda, fosgnio e lewisita, que j foram usados na I Guerra. 
 Com as foras anti-Assad infiltradas por islamistas, inclusive por membros da Al Qaeda, um ataque externo que precipite a queda do regime pode vir seguido de uma guerra civil entre as faces rebeldes, e as armas qumicas poderiam cair nas mos de terroristas. 
     S resta torcer para que o bombardeio da Sria no torne as coisas ainda piores do que esto.


